Plantas

A vida consciente das plantas: o tacto

otacto

Adoro passear nos jardins e observar as plantas. Muitas vezes não consigo resistir e toco nas folhas, nas flores, nos troncos… Comparo as texturas, as formas, as matérias… Será que as plantas sentem e apreciam os meus ‘miminhos’? Estarão dotadas do sentido de tacto? O tocar da minha mão é neutral, positivo ou negativo para elas? Será que a planta sente quando tiramos-lhe uma folha, uma flor ou um ramo inteiro?

Obviamente, as plantas não sentem como as pessoas, não têm consciência como os homens ni sentem emoções. Mas… sabem quando são tocadas, mais até, apercebem-se das mudanças da temperatura ou de movimento do ar!

Basta pensar nas trepadeiras que, quando encontrarem o apoio adequado, começam a crescer mais rápido ou nas carnívoras (se quiserem saber mais sobre a criação dessas plantas, visitem o blog Saberes do jardim – muitas informações úteis e dicas para os amadores de carnívoras) que, logo que sentem um insecto pousar nelas, fecham-se e não deixam a proa escapar.

Como a dioneia sabe quando a proa chegou e se é de tamanho certo?

As folhas que, quando abertas, formam um V, por dentro têm vários pelinhos dispersos ao longo delas que lhe permitem detectar e avaliar o tamanho do insecto. As folhas só fecharão, se os pelinhos forem tocados, um após o outro, no intervalo de pelo menos 20 segundos. Curiosamente, a planta não reagirá às gotas da chuva ou ao vento. Como a venus papa-moscas sabe que o que pousou na folha é comida?

Quando nós, os homens, tocamos nalguma coisa, as células presentes na área do nosso corpo que entrou em contacto com algum objecto, accionam-se e passam a informação, através dos neurónios para o nosso cérebro e este a interpreta. Na nossa pele estão presentes vários tipos destas células: umas responsáveis pela sensação de dor, outras accionadas pelo frio e pelo calor, outras ainda especializadas em detectar insectos que se passeiam em cima do nosso corpo. Embora, cada tipo tenha um papel diferente, o mecanismo do seu funcionamento é parecido: quando tocamos nalguma coisa, as células mecanorreceptoras são activadas e passam a informação através dum sinal eléctrico para o nosso cérebro.

Da mesma maneira, o insecto que toca em dois pelinhos da dioneia, acciona as células mecanorreceptoras presentes nos pelinhos e essas, mudando o seu potencial eléctrico, dão sinal para a folha se fechar.

A folha da dormideira a fechar-se depois de ser tocada

A folha da dormideira a fechar-se depois de ser tocada

A mesma reacção produz-se, quando tocamos nas folhas da dormideira. As duas plantas conseguem mexer voluntariamente e bruscamente as folhas, embora não tenham músculos! Isto acontece graças aos microfluxos da água dentro das células da folha: quando as mecanorreceptoras são activadas, as células bombeiam a água para fora da folha, depois de alguns minutos, a agua é bombeada de volta para a folha e esta ergue-se de novo.

Infelizmente para os jardineiros, os científicos confirmam que a maioria das plantas não gosta de ser tocada. Mais ainda, existem algumas que até podem morrer por serem tocadas demasiadas vezes.

Um exemplo é o Xanthium strumarium: um grupo de investigadores media todos os dias as folhas dessas plantas com uma régua. Depois dalguns dias, observaram que as folhas que foram medidas regularmente ficavam amarelas e, finalmente, morriam, enquanto o resto da planta continuava saudável. Anos mais tarde, Mark Jaffe, fisiólogo de plantas, confirmou que os estímulos mecânicos regulares podem parar ou modificar o crescimento das plantas.

Já observaram que as plantas que crescem nas montanhas altas ou a beira do mar onde há muito vento, são, normalmente, mais pequenas e mais compactas que os representantes da mesma espécie que crescem num sítio abrigado do vento? As primeiras, “estimuladas” pelas condições, têm de dirigir as energias para construir uma estrutura forte (raízes, tronco) que lhes permita sobreviver.

Quando cortamos uma folha ou um ramo duma planta, esta também apercebe-se disso e envia um sinal eléctrico e adverte o resto do organismo do perigo. Se a acção de cortar for repetida regularmente, pode levar às mudanças genéticas através das quais a planta comunicará às futuras gerações como adaptar-se às condições nas quais vão crescer.

Estas são as principais razões pelas quais as plantas necessitam do sentido do tacto: não para evitar a dor (não podem fugir nem senti-la como nós), mas para adaptar-se às condições nas quais têm de viver.


Escrevendo este artigo baseei-me no livro:

Daniel Chamovitz. Zmysłowe życie roślin. Co wiedzą rośliny?Grupa Wydawnicza Foksal. Warszawa 2013.

http://www.whataplantknows.blogspot.fr/

Acho que a versão em português ainda não está pronta, mas podem ler o original em inglês ou a versão francesa:

www.whataplantknows.com

You Might Also Like